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GUAPORÉ | Desabafo de um profissional da Saúde

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Já nos aproximamos da metade do mês de março e, sinceramente, eu não vi o tempo passar. Cadê 2020? Será que estaremos vivendo um 2021 com a rapidez do sopro do vento?
Tudo está assustadoramente confuso. E triste. Há um ano e um mês vivenciávamos a presença do primeiro caso de infecção pelo COVID 19 no nosso país. Uma doença nova, silenciosa e devastadora, que já separou pais e filhos, tios, amigos e conhecidos.
Eu como trabalhador da saúde e linha de frente, venho compartilhar pequenos momentos diante das inúmeras coletas diárias de exames que realizo no Posto de Saúde Central, bem aí, do ladinho do hospital, onde colegas fazem de tudo para manter o teu amigo, vizinho ou até mesmo familiar, com oxigênio o suficiente para mantê-lo vivo.
Relato a história de um senhor de 84 anos, lá sentadinho, aguardando a hora da coleta. Ao chamá-lo, o vejo todo arrumado, camisa social, cabelo limpinho e todo perfumado. Ao entrar em uma das cabines da tenda, observo que o mesmo faz o sinal da cruz por mais de cinco vezes, confesso que meu mundo desabou, tento conversar incansavelmente com o mesmo, falando coisas positivas, para tentar animá-lo de um momento que não é nada agradável nem para mim.
Passados os quinze minutos, tempo suficiente para termos um resultado fidedigno do teste, o chamo para entregar o seu laudo. Essa é a pior parte, não duvido da inteligência e capacidade de ninguém que passa pela tenda de coletas, mas muitos não têm nem noção do que é o Coronavírus ainda, algo invisível e tão mortal.
-Senhor, seu teste deu positivo para Coronavírus. Desesperadamente, vejo uma lágrima cair do seu rosto e uma pergunta um tanto forte: “-Eu vou morrer? ”
Confesso a vocês que em certos momentos, eu não sei como reagir, e este foi um deles.
Silenciei por segundos e o acalmei. Orientei a seguir no isolamento e qualquer sintoma diferente que procurasse imediatamente uma consulta médica. Meu dia acabou ao me despedir do senhor? Não. Minha vontade era de ir embora, porém, havia mais de trinta coletas a serem realizadas ainda. Força!
Estamos todos com medo. Eu também tenho medo, mas não de ir às compras, tenho medo de ir trabalhar. Medo, porque a máscara pode não aderir direito ao rosto, ou posso me tocar acidentalmente com as luvas sujas, ou que o protetor facial não cubra completamente meus olhos e alguma coisa possa passar.
Estou fisicamente cansado porque os dispositivos de segurança machucam, o jaleco me faz suar e, uma vez vestido, preciso estar equipado pelo resto do turno. Estou psicologicamente cansado e, como eu, todos os meus colegas estão na mesma condição há meses, mas isso não nos impedirá de fazer o nosso trabalho como sempre fizemos, ou até mesmo melhor.
Se você está lendo esse post, não quero lhe frustrar, mas proteja-se. Nós, jovens, não somos imunes ao Coronavírus, também podemos adoecer, ou pior, podemos deixar os mais frágeis doentes.
Não temos mais vagas em UTI, colegas estão exaustos e os recursos irão acabar. Não sejamos ignorantes ao ponto de nos tornarmos pessoas inteligentes somente quando perdermos uma pessoa próxima. Nós perdemos histórias diariamente. Espero não precisar contar aqui a tua história. Ter empatia é ter consideração pelo outro.
Sou Cassiano Ricardo Contarin, Cirurgião Dentista e atuo na linha de frente ao combate ao Coronavírus em Guaporé – RS
FONTE: Rádio Aurora
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Andressa de Oliveira

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